A Antiutopia e Por Que Todos Precisamos Dela ao Menos Uma Vez na Vida

No universo dos livros existem os mais diversos géneros literários, que reúnem em si, cada um, um conjunto de obras que apresentam características similares na sua forma e conteúdo. Um dos géneros mais apreciados por fãs de cultura pop é a distopia.
A distopia, ou ainda, a antiutopia, é um conceito filosófico adotado por vários autores e expresso em suas criações ficcionais, nas quais eles retratam uma sociedade construída no sentido oposto ao da utopia. Se ela prevê um sistema perfeito, um estado ideal, onde vigora a máxima felicidade e a concórdia dos cidadãos numa sociedade perfeita, a distopia segue a direção diametralmente oposta. O caos social, a confusão mental, a ilusão como ferramenta de controlo das massas, o imprevisível e o fim dos tempos são temas recorrentes… e perturbadores.
E por que todos deveriam ler uma obra distópica ao menos uma vez?
Este género literário busca trazer uma forma de advertência para fatos e situações do nosso cotidiano que nos deveriam ser objeto de reflexão. As obras abusam da ironia, do exagero e também da busca por tornar muito mais explícitos os pactos e formas sociais que já não cabem mais ou que podem ser prejudiciais à sociedade e às pessoas.
Frequentemente associadas à situações que hoje fazem parte do nosso dia a dia, as distopias servem como fonte de reflexão sobre os caminhos que as sociedades e as correntes de pensamento tomam à medida que as gerações passam, que a tecnologia evolui e que o futuro, que antes parecia tão distante e semeado por ciborgues, androides, robôs, dispositivos elétricos e até veículos inteligentes e voadores tornam-se parte de nossas vidas. Seriam as distopias uma forma de prever o porvir?
A distopia representada em obras da cultura pop
Nos tempos mais recentes, temos visto grandes obras distópicas invadirem as telas em produções audiovisuais que causaram forte impacto em seus lançamentos e que provocam discussões acaloradas sobre o nosso futuro. Separamos alguns exemplos e relacionamos com as obras literárias que as inspiraram para que possa mergulhar neste tema tão aliciante quanto necessário e potencialmente perturbador.
O BIG BROTHER
O famoso reality show foi inspirado no clássico "1984", em que a autoridade do "Grande Irmão" segue os passos de toda a população por meio de câmeras. No romance, o personagem do Grande Irmão é o líder supremo do cenário (a fictícia Oceânia) que controla toda a população.

Na história, todos os cantos públicos e privados estão ligados às “teletelas”, uma espécie de câmera capaz de monitorar, gravar e espionar a intimidade da sociedade — assim como acontece na casa do Projac (centro de produções da Rede Globo de Televisão no Rio de Janeiro, Brasil, e à semelhança do que ocorre nos demais países que adoptaram este modelo de programa televisivo), que abriga todo ano os participantes do reality.
Assustador é pensar que este universo distópico criado pelo escritor britânico George Orwell foi publicado ainda em 1949. Seria uma antevisão do futuro?
PHILIP K DICK (PKD), BLADE RUNNER E AS SUAS OVELHAS ELÉTRICAS
O americano Philip K. Dick é o autor cuja obra ("Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?" de 1968) inspirou um dos maiores sucessos do cinema de todos os tempos, Blade Runner - filmado por Ridley Scott. O escritor morreu em março de 1982, três meses antes do lançamento deste filme, mas o seu legado reflete-se em outros grandes sucessos de público e crítica.

No século 21, uma corporação desenvolve clones humanos para serem usados como escravos em colônias fora da Terra, identificados como replicantes. Em 2019, um ex-policial é acionado para caçar um grupo fugitivo vivendo disfarçado em Los Angeles. Ambientado com uma genética avançada, muita inteligência artifical, carros voadores, humanóides e frequentes viagens ao espaço, o filme parece ter sido um pouco otimista demais a respeito do desenvolvimento tecnológico.
O filme ganhou uma eletrizante continuação, Blade Runner 2049, com provocações ainda mais profundas sobre temáticas com as quais podemos ter de vir a nos acostumar - o excesso de lixo, a alimentação escassa, o fim das árvores, cidades verticais, luzes neon e conflitos profundos acerca da nossa condição humana, de todo.
TOM CRUISE, A JUSTIÇA NO FUTURO E UM MUNDO (SUPOSTAMENTE) SEM CRIMES
O que configura a culpa de uma pessoa em um crime? Cometer o ato, planeá-lo? Onde começa e onde termina o argumento que pode tornar uma pessoa num condenado à privação da sua liberdade? Baseado num conto de Philip K. Dick, com Tom Cruise no papel central, o filme de Steven Spielberg "Minority Report" é uma brilhante variação sobre a tradição aventurosa das “viagens no tempo”.
No filme, descobrimos um tempo futuro em que a vigilância policial possui poderes de antecipação dos crimes que vão ser cometidos… até que um dos inspectores (Cruise) é apontado como potencial autor de um crime futuro… Penetramos num universo tanto mais inesperado e perturbante quanto todas as clássicas fronteiras do conhecimento humano estão postas em causa. Spielberg encena, assim, uma aventura futurista que, em última instância, nos confronta com uma questão sempre actual. A saber: quais as relações entre os mecanismos de preservação da ordem social e os avanços da tecnologia e, de modo geral, o conhecimento científico?
OUTROS GRANDES CLÁSSICOS LITERÁRIOS DO UNIVERSO DISTÓPICO PARA FICAR A CONHECER
1. O Conto da Aia - The Handmaid's Tale

Escrito em 1985, o romance distópico The Handmaid's Tale, da canadiana Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais falados em todo o mundo nos últimos meses, ocupando mais uma vez uma posição de destaque nas listas de best-sellers em vários países. Além de ter inspirado a série com o mesmo nome (The Handmaid's Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, a ficção futurista de Atwood, ambientada num estado teocrático e totalitário em que as mulheres são as vítimas preferidas da opressão, tornam-se propriedade do governo, e o fundamentalismo é reforçado como força política, ganhou o estatuto de oráculo nos EUA da era Trump.
2. Fahrenheit 451

Fahrenheit 451 é um livro de ficção científica publicado em 1953 pelo escritor norte-americano Ray Bradbury. O romance conta sobre uma realidade distópica em que o trabalho dos bombeiros é basicamente queimar livros, isso porque foi instaurada uma cultura de combate ao pensamento crítico e autônomo dos indivíduos. Guy Montag é o protagonista, um bombeiro que tem a missão de destruir livros, mas que acaba percebendo a importância da leitura.
Essa é uma obra que carrega forte crítica social ao que se refere ao autoritarismo e à repulsa ao conhecimento, intensamente presentes durante o nazismo e que contextualizaram a década de 50 no pós-guerra. Se tornou num clássico da literatura e do cinema por apresentar uma história bastante absurda, ao passo que traça um diálogo cada vez mais forte com a contemporaneidade.
E ainda mais 3 bónus:
3. A Duna, de Frank Herbert

4. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

5. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

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